Nos estatutos de 1941, como nos actuais, os aprovados pela Portaria n.o 21.307, de 8 de Junho de 1960, está plasmado que o CFVM, tal na época do seu nascimento, em 1924, é uma associação de carácter educativo, recreativo, cultural, artístico, desportivo e beneficente.
Alheio a todas as manifestações de carácter político e ou religioso, o CFVM enquadra, em primeiro lugar e voluntariamente,’ todos os ferroviários - os cidadãos que prestam serviço na empresa CFM e nos organismos e sectores laborais a ela inerentes, nomeadamente, Portos e Transportes em todo o país.
Este dispositivo não inviabiliza, porém, a filiação de outros cidadãos, pois o clube pelo seu carisma e sobretudo pelo facto de exercer a sua actividade em todo o território nacional, a partir de determinada altura longínqua, passou a constituir uma referência desportiva obrigatória para todos os moçambicanos.
A empresa CFM sempre incentivou as melhores relações entre os ferroviários e os cidadãos, assim como nunca deixou de fomentar a elevação social em todas as regiões e localidades do norte, centro e sul de Moçambique servidas pelos meios de transporte e comunicações sob a sua administração. Aliás, a rápida expansão do CFVM deveu-se fundamentalmente ao princípio de que cada delegação da empresa implantada significava a edificação, para o uso dos seus trabalhadores e da população local, de infra-estruturas vocacionadas para a prática e desenvolvimento das actividades desportivas, para além de outras manifestações de âmbito cultural e recreativo.
É assim que a partir da “ferroviarização” (expansão das linhas férreas) de Moçambique, que das cidades às mais recônditas vilas e povoações nasce um clube Ferroviário, desde que no local existam serviços e um significativo número de trabalhadores dos CFM.
São muito poucas as regiões de Moçambique que não possuem, no mínimo, um ramal de caminho de ferro. O Ferroviário chegou, se é que ainda não continua, a ser o clube de maior abrangência efectiva no continente africano e uma das maiores colectividades desportivas do mundo, se se considerar o seu efectivo humano. Por isso, apesar de ser a mais nova agremiação desportiva no grupo das mais antigas e emblemáticas de Lourenço Marques (1°-de Maio, Sporting e Desportivo), não pode espantar a hegemonia desportiva, humana e quiçá financeira e de infraestruturas que desde cedo a caracterizou no contexto desportivo moçambicano.
A hegemonia do CFVM ganhou um novo ímpeto e talvez saiu mais reforçada durante a presidência do Eng. Eduardo Veríssimo Dias Barbosa, exactamente a partir de 3 de Dezembro de 1954, quando o então governo de Moçambique outorgou à colectividade o estatuto de Instituição de Utilidade Pública.
Outra particularidade do CFVM assenta no facto de ser dos poucos clubes que, pertencendo à elite colonial, não se refugiou nos’ estatutos e princípios das agremiações então existentes em Portugal continental. Aliás, a sua função social estava muito dependente da própria política estrutural e laboral dos CFM, cuja actividade dependia, grandemente, da força de trabalho dos naturais - não vinha dai um colono qualquer para as tarefas de “fogareiro” e muito menos para as de carregador e montador de “travessas”.